Vigarices
01/08/08
- OH! ASSURICAN- ALABANIAN- SELAMANE- LEPATAN ! OH! OH!
ALELUIA!- SIRIÁLÁLÁ - SIRIÁLÁLÁLÁÊ – SIRIÁLÁLÁLÁLÁLÁLÁ – SHURIALÁLÁLÁBAÊ -
SHÊRÊLÊBÊ – LÁBÁ – CANTOSCRÊBÊ- LÁBÁ - LÁBÁ....
Não, caro leitor! Não estou senil, nem meu teclado está com defeito. Essa
papagaiada desconexa acima é uma língua. Sim, apesar de quem a fala confessar
não saber o que falou, mas continua a afirmar que é uma língua. E, pasmem,
juntamente com ele, ninguém mais entende o que foi dito. Ele confirma e bate o
pé: é uma língua, sim!
- BALA, BALA, BALA, BALA, BALA - ORICANDA –
ALABASSURIANDA – ALABAIA - BALA, BALA, BALA, BALA – ORIANDA – ALABAIA - BALA,
BALA, BALA, ALARABA, ABABARA, ATABARAM, SHURIALIÊ
O auditório está lotado. Um truão está ao microfone, no palco. Esse palavreado
sem sentido, disparado rapidamente faz com que a multidão comece também a
parlengar aos gritos, enchendo o ambiente com um barulho ensurdecedor.

Este cenário, que começou nas castas mais baixas dos cristãos pentecostais,
acontece hoje nos auditórios de igrejas tradicionais, antes respeitadas por
tentar coadunar uma cultura elevada com fé. Acontece que a força da fé é
inversamente proporcional à cultura e ao conhecimento - à ciência. E ambas são
mutuamente excludentes. Ou seja: não há modo de conciliá-las.
Desconhece-se quem foi o inventor da técnica de se repetir mantras para se
atingir um nível elevado de catarse em uma multidão. Porém alguém notou que essa
técnica nas congregações de castas baixas (pessoas pobres, analfabetas,
residentes em cortiços e favelas) resultava num êxito formidável. Esse êxito
traduz-se sempre em dinheiro. Os fiéis empobrecidos e embrutecidos, embriagados
pelo “ópio do povo” abrem a bolsa e tiram comida da própria boca para sustentar
o “reino celeste”.
A ciência e a cultura nunca fizeram parte da vida da imensa maioria da
população brasileira e agora estão se apartando lentamente do restante dela,
fazendo com isso que o parlengar de parlapatões seja acolhido por uma imensa
massa como língua.
Mas, para se impingir tal idiotice ilógica, mesmo aos ignaros, deve-se arranjar
uma justificativa. Entre pessoas normais, com algum senso da realidade, essa
justificativa deveria ser palpável, coerente, inteligível. Porém, é impossível
encontrar, pelo menos, uma que possua tais qualidades.

A alegação principal é um sofisma sobre a fantasia descrita nos “Atos dos
Apóstolos”, na passagem narrando “descida do espírito santo”, que apareceu em
forma de “línguas de fogo sobre as cabeças dos apóstolos”. Nesse momento, os
ouvintes entendiam o que os apóstolos pregavam, ou seja: os estrangeiros ouviam
a mensagem em sua língua natal apesar dos apóstolos estarem falando em sua
própria língua.
Os
espertalhões usam a expressão “língua de fogo” (uma chama em forma de língua,
uma chama curta e estreita, uma pequena chama) para associar esse sentido
figurado com idioma, ligando-o ao restante do conto.
Então surgem as justificativas: Eis uma “explicação”, dada pelo mentor da seita
Canção Nova:
“O primeiro dom que se manifestou foi o de línguas. Em
pentecostes, os discípulos, junto com Maria, ficaram cheios do Espírito Santo e
começaram a orar, a louvar, a cantar numa língua nova, a língua do Espírito.
Alguns interpretaram o acontecimento e disseram: Eles louvam a Deus, estão
cantando as glórias de Deus, e nós estamos entendendo com o coração. Outros
estavam ali como curiosos, brincando, zombando, dizendo que os discípulos
estavam bêbados. Pedro explicou: Não estamos bêbados; pelo contrário, está se
cumprindo a profecia de Joel''.
Falácia pura. Eis o que existe REALMENTE sobre tal acontecimento, em Atos-2 em
diante:
"E quando se completavam os dias de
pentecostes estavam todos juntos num mesmo lugar. De repente veio do céu um
estrondo, como de vento que assoprava com ímpeto, e encheu toda a casa onde
estavam assentados.
E foram vistas por eles línguas repartidas, como que de fogo, as quais pousaram
sobre cada um deles. E todos foram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar
noutras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem.
E, achavam-se então habitando em Jerusalém, judeus e varões religiosos de todas
as nações que há debaixo do céu.
Quando a notícia correu acudiu muita gente e ficou pasmada porque cada um os
ouvia falar na sua própria língua. Estavam, pois, todos atônitos, e se admiravam
dizendo: Porventura não está se vendo que são galileus todos esses que falam?
Como, pois, os ouvimos, cada um, na nossa própria língua em que somos nascidos?
(...) Nós todos temos escutado, em nossas línguas, as maravilhas de deus que
eles pregam."
O
mentor mente e inventa essa tal de “língua nova”, catalogando-a como “língua do
espírito santo”. Coloca Maria em cena, por sua própria conta. O capitulo II dos
Atos dos Apóstolos, que trata da “vinda do espírito santo” é claríssimo.
“Língua” referida nele significa idioma. E ali se refere ao dom de se falar
“idiomas estrangeiros”, ou seja, idiomas que existem e são compreendidos pelas
pessoas que os utilizam. A tal profecia de Joel diz que o Senhor realizará
prodígios. Nada mais.
Observe-se ainda que o mentor, de má fé, interpreta, a seu modo, o que
não está escrito no seu "livro sagrado", quando diz que os apóstolos
“oravam, cantavam e louvavam” e completa, mudando radicalmente o texto original,
dizendo que “falavam UMA língua nova”. Leia novamente o texto, que diz
claramente “NOUTRAS LÍNGUAS ” e que eram compreendidas por todos.
Em
seguida diz que todos entendem a língua com o coração(???), mas não prova o que
seja isso. Veja que isso também não está no texto original. Fica
claro no original que a referência é a IDIOMAS de outras nações, falados e
entendidos por cada um que nasceu nelas. A narração original tem a intenção de
apresentar esse acontecimento como prodígio sobrenatural.
Continuando, a seita diz:
"O que é o dom de línguas? Quando nós somos batizados no
Espírito Santo, a primeira coisa da qual nos enchemos é de oração. E por que
isso? Porque o Espírito Santo é a ligação entre o Pai e o Filho. A oração é a
comunicação entre o Pai e o Filho; o Filho que fala ao Pai e o Pai que fala ao
Filho. A beleza da intimidade que acontece dentro da Trindade é feita pelo
Espírito Santo. O Espírito Santo é oração.
Além disso, Ele é a ligação entre Deus e nós. A oração que vai e a oração que
volta. Quando somos introduzidos no Espírito Santo, saímos cheios de oração,
porque o Espírito Santo é oração, uma oração de fogo, infalível.
Nós damos o combustível, que é o nosso ar. Movemos nossas cordas vocais, movemos
a boca, a língua, geramos sons; e o que acontece? O Espírito Santo ora, fala e
canta em nós. Fornecemos a expressão palpável, mas quem dá o conteúdo, o fogo e
a oração é o Espírito Santo."
Observe-se a técnica de justificativa. Primeiramente uma assertiva: “Quando
nós somos batizados...” etc. Quem prova essa afirmação? Depois vêm os
famosos “porquês”: "Porque o Espírito Santo é a ligação entre o Pai e o
Filho...." E tome assertivas e “porques”.
Observe bem que o vocábulo “porque” é uma conjunção causal ou explicativa, usado
para se dar uma explicação ou para mostrar a origem ou causa de uma assertiva
anterior. O complemento do “porque” deve ser uma explicação real, verdadeira,
coerente, palpável. No tipo de atividade em pauta, é usado abundantemente
fornecendo explicações absurdas, desconexas, tolas, sem a menor relação com a
assertiva anterior que quer justificar ou explicar.
Voltando ao trecho “explicativo”, no final diz que o “Espírito Santo ora,
fala e canta em nós”. Ao se dar crédito a essa explicação defeituosa vamos
perceber que transformaram um elemento da “trindade suprema” em mera oração.
Pergunta-se então: se o “deus espírito santo” está no interior da pessoa, por
que precisa que ela produza uma verborragia silábica sem sentido? Por que um
deus precisa do grito de um ser humano? Se ele já conhece as suas necessidades,
que faça o meio de campo com os outros dois deuses sem incomodar seu hospedeiro
e os que estão em volta.
Depois, continuando a falácia, inverte a situação em 180º, transformando a
burrice e estultice do palavreado desconexo em “inteligência”:
"Que
acontece no dom de línguas? Quem entra em ação não é a nossa inteligência.
Movimentamos as cordas vocais, soltamos o ar, mexemos a língua, a boca, e
produzimos som; mas o conteúdo vem do Espírito Santo. Da minha inteligência?
Não! Da inteligência do Espírito Santo."
Seguindo, informa-se que essa afirmação é explicada por Paulo em uma passagem
pinçada de Rom-8,26:
''Do mesmo modo, também o Espírito vem em
socorro da nossa fraqueza, pois não sabemos rezar como convém; mas o próprio
Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis''.
Essa
explicação é bem simples: ''gemidos inexprimíveis'', quer dizer: gemidos que não
podem ser entendidos, a não ser quando Deus dá a interpretação.
Veja que Rom-8,26 não é bem assim como o mentor da canção nova exprime. Eis o
original:
“E assim mesmo o espírito ajuda também a nossa fraqueza:
porque não sabemos o que havemos de pedir como convém. Mas o espírito santo ora
por nós com gemidos inexplicáveis.”
Apesar
de epístola nenhuma servir de prova para qualquer coisa, veja o continuado uso
do “porque” no versículo acima: Primeiramente diz que o espírito ajuda nossa
fraqueza. Uma afirmação que deve ser provada. Depois vem a prova: “Porque não
sabemos....” Analisando-se bem o trecho “não sabemos....etc” é outra
afirmação, sem qualquer ligação com a antecedente. Ou seja, além de nada provar,
ainda abre outra afirmação que deve ser provada!! E assim, com esse estilo
beócio, estão as epístolas e seus seguidores.
Veja que no trecho modificado o mentor trocou “pedir” por “rezar” e “ora” por
“intercede”. Está certo que são sinônimos, mas com a troca sutil, o mentor
eliminou a abrangência de “pedir” e “orar” pela especificidade de “rezar” e
“interceder”. Assim direciona a ligação entre a verborragia imbecil por eles
praticada com o ato de “rezar”
Já o espírito, que no original apenas “ora”, na modificação, tem um papel bem
mais determinado: "intercede". A oração pode conter um pedido, que será ou não
aceito. Na intercessão, existe quase que uma garantia que o pedido será
atendido.
Porém, a própria epístola define bem o que sejam os tais gemidos. Isso vem
antes, no versículo 22, que foi deixado de lado, propositadamente. Paulo está
tentando provar com argumentos sem pé nem cabeça (usando “porques” de forma
abusiva e sem sentido) que os que vivem com Jesus estão isentos de condenação
(???) e estão possuídos pelo espírito santo (???). Se isso acontece, então essas
pessoas são filhos de deus e terão uma vida futura gloriosa.
Quer a prova?
No versículo 16 diz:
“Porque o mesmo espírito (de deus) dá testemunho
ao nosso espírito de que somos filhos de deus”.
Porém
como ele faz isso? Como provar que existe espírito santo? Isso Paulo não
explica, mas diz que “julga” (opinião dele) que a glória vindoura será imensa
(para os filhos de deus) e o que toda criatura (não convertida) deseja é ter o
privilégio de ser filho de deus. E que essas criaturas, na ânsia de terem seu
desejo satisfeito “gemem e estão com as dores do parto.” (Rom-8, 22).
Porém,
os filhos de deus também “gemem, dentro de nós mesmo" (Rom-8,23) na
espera da conversão dessas criaturas e na “redenção do nosso corpo”.
(Note bem que isso é opinião pessoal de Paulo. Inferências, nada mais.)
Gemer,
aqui, significa uma demonstração de angústia, as criaturas sem deus, estão
angustiadas na espera de serem adotadas e os filhos de deus estão angustiados
para que elas se convertam o mais rápido possível.
Continuando Paulo sofisma, dizendo que nessa angústia da espera é que se
encontra a salvação. E, a esperança deve ser algo desconhecido, pois se alguém
vê o que espera, isso não é esperança. Portanto, a esperança no acontecimento
desses dois fatos deve ser algo não acessível ao filho de deus, ou seja, “se
o que não vemos esperamos: por paciência esperamos” (Rom-8,25)
Essa espera no escuro é uma fraqueza e poderia desanimar o fiel. Nesse ponto,
Paulo joga uma bóia de salvação, com o famoso Rom-8,26. Nele avisa que a espera
não será feita às cegas, pois o espírito santo vem ajudar. Porém, como o fiel
saberá que está sendo ajudado pelo espírito? Não saberá, nem precisa ficar
preocupado com isso, pois o espírito “ora por nós com gemidos inexplicados”.
A tradução de “gemidos inexplicados” nesse contexto é “de forma desconhecida”.
Ou seja, de uma forma que não pode ser exprimida com palavras. Assim, como se
utiliza de “gemer” como uma figura para demonstrar a angústia, o autor agora
utiliza a mesma expressão para demonstrar que a forma de atuação do espírito
santo é inexplicável e não pode ser expressa com palavras. Tomás de Aquino
corrobora essa explicação, dizendo inclusive que até a alteração dos batimentos
do coração pode ser forma de expressão da atuação do espírito santo.
Salta à vista que Paulo está utilizando aqui o principal mote do cristianismo: “Não
pergunte, apenas creia.” Ou seja, não queira saber como o espírito santo
age. Apenas creia que ele está contigo e vai te ajudar, mesmo que você não
perceba. Ponto final.
Portanto, querer justificar com essa epístola a logorréia que acontece nas
“adorações” é pura falácia. Mesmo porque Paulo explica em outra epístola o que
significa “línguas”, demonstrando que é sinônimo de idioma e instrui com todas
as letras para que as palavras sejam pronunciadas de forma inteligível, sem
transformar a assembléia em um circo. Veja:
(Cor-14)
“Segui a caridade, e procurai com zelo os dons
espirituais, mas principalmente o de profetizar. Porque o que fala em língua
desconhecida não fala aos homens, senão a Deus; porque ninguém o entende, e em
espírito fala mistérios. Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação,
exortação e consolação. O que fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo,
mas o que profetiza edifica a igreja."
(comentários: Em todas as epístolas, Paulo se refere a “falar em línguas”,
aproveitando-se do fenômeno de xenoglossia - a capacidade da pessoa, em estado
alterado de consciência, de falar em outras línguas que não seja a sua - para
usá-lo como prova de que havia algo sobrenatural interferindo com os apóstolos.
Assim, se alguém fala em idioma estrangeiro sem entender o que fala e sem que
haja alguém por perto que o entenda, está perdendo tempo, pois nem sua
consciência, nem seu espírito, têm noção do que foi dito.)
"Quero que todos vós tenhais o dom de línguas, mas muito
mais que profetizeis; porque o que profetiza é maior do que aquele que fala
diversas línguas, a não ser que ele também a interprete para que a igreja
compreenda e receba edificação."
(comentário: Paulo deixa bem claro que falar idiomas estrangeiros – sem
entendê-los, é claro – é um dom sobrenatural (um prodígio que prova que sua
religião é a certa) porém somente tem valor se houver interpretação. Veja que o
outro “dom” – profetizar – é o mais valioso. A atração por previsões para o
futuro é fortíssima no vulgo e Paulo sabia disso. Então, deixa bem claro quais
são as regras em sua igreja, que deve entender bem todas as mensagens
transmitidas.
"E agora, irmãos, se eu for ter convosco falando em
diversas línguas, qual seria meu valor para vocês, se não vos falasse ou por
meio da revelação, ou da ciência, ou da profecia, ou da doutrina? Da mesma
sorte, se as coisas inanimadas, que fazem som, seja flauta, seja cítara, não
formarem sons distintos, como se conhecerá o que se toca com a flauta ou com a
cítara? Porque, se a trombeta produzir um som confuso, quem se preparará para a
batalha?"
(comentário: ou seja, alguém falando uma língua estranha sem ser compreendido,
não tem nenhum valor para a comunidade)
"Assim também vós, se com a língua não pronunciardes
palavras bem inteligíveis, como se entenderá o que se diz? Porque sereis como
quem fala ao vento.
Há, como todos sabem, tantos gêneros de línguas no mundo, e nenhuma delas é sem
significação. Se eu, pois, não entender o que significam as palavras, serei
bárbaro para aquele a quem falo, e o que fala será um bárbaro para mim da mesma
forma.
Assim também vós, como desejais dons espirituais, procurai abundar neles, para
edificação da igreja. Por isso, o que fala em uma língua desconhecida, peça o
dom para que a possa interpretar. Porque, se eu orar em língua estrangeira,
(sem entender, é claro!) verdade é
que o meu espírito ora, mas o meu entendimento fica sem fruto. Que farei, pois?
Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito,
mas também cantarei com a mente. Porém, se louvardes com o espírito, como
poderá, o que ocupa o lugar de simples no povo, dizer “Amém’, sobre a tua ação
de graças, visto não entender ele o que tu dizes? Porque realmente tu dás bem as
graças, mas o outro não é edificado."
(comentário: veja bem que “louvar com o espírito” foi explicado anteriormente
como produto de orar em língua estrangeira. Outro detalhe: orar com a mente é
orar em silêncio)
"Dou graças ao meu Deus, porque falo todas as línguas que
vós falais. Todavia eu antes quero falar na igreja cinco palavras na minha
própria inteligência, para que possa também instruir aos outros, do que dez mil
palavras em língua estrangeira."
(comentário: Pronto. Paulo aqui informa qual é o valor a ser dado para falar em
língua estrangeira: Zero!)
"Irmãos, não sejais meninos no entendimento, mas sede
meninos na malícia, e perfeitos no entendimento. Está escrito na lei: Por gente
de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me
não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os
fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para
os fiéis.
Se, pois, toda a igreja se congregar num lugar, e todos falarem em línguas
diferentes, e entrarem então pessoas simples ou infiéis, não dirão porventura
que estais loucos? Mas, se todos profetizarem, e alguma pessoa simples ou infiel
entrar, é convencido por todos, é julgado por todos. (...) Que fareis, pois,
irmãos? Quando vos ajuntais, se cada um de vós tem o dom de compor salmo, tem o
de doutrinar, tem o de revelar, tem o de línguas, tem o de as interpretar, então
faça-se tudo isso para edificação. Ou, se alguém tem o dom de línguas, não falem
senão dois, ou quando muito três, e um depois do outro, e haja alguém que
interprete o que eles disseram. Mas, se não houver intérprete, fiquem calados na
igreja, e falem consigo mesmo, e com Deus. (...) Portanto, irmãos, procurai, com
zelo, profetizar, e não proibais o uso do dom de línguas. Mas faça-se tudo com
decência e com ordem.”
(comentário: Paulo, nesse trecho, deixa o esquema bem claro: se não houver
intérprete, fique em silêncio. E dá uma importância mínima à capacidade de
alguém falar em idioma estrangeiro, com relação à capacidade de profetizar.)
Porém,
a pá de cal nesse assunto é colocada pelo próprio Jesus (o deus supremo do padre
Jonas). Veja o Sermão da Montanha (Mt 6;
5-8):
"E quando orardes, não façais como os
hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas,
para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua
recompensa. Quando tu orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao
teu Pai em segredo; e teu Pai, que tudo vê num lugar oculto,
recompensar-te-á. Nas vossas orações, não faleis demasiado, como fazem
os pagãos que julgam que serão ouvidos por falar muito. Não os imiteis,
porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós Lho peçais".
Aí
está. Procurem na Internet as explicações sobre “falar em línguas” e descubra
que os defensores dessa prática tola pinçaram apenas o que queriam nessas
epístolas de Paulo e nos Atos dos Apóstolos para tentar justificar justamente o
contrário do que Paulo e Jesus aconselham.
Mas,
por que, então, essas cabeças coroadas vão contra Jesus, um deus, e contra o verdadeiro fundador do
cristianismo – Paulo – desobedecendo a seu livro sagrado? A resposta é simples e
pode se ter uma pista no que diz um pastor Rodolfo Bussinguer de uma certa
“Comunidade Rama”:
“Quem fala em línguas desenvolve a intimidade com Deus,
porque usa a fé (está falando uma coisa que não entende, mas Deus entende). Há
um efeito sobrenatural muito forte.”
Veja que não há bom senso na coisa. Se você pode falar em sua
própria língua, por que usar um ajuntamento de sílabas sem sentido? Afinal deus
entende qualquer coisa. “Porque você não sabe o que pedir”, é a
resposta cretina.
Primeiramente, garanto que todos sabem o que pedir; segundo, se o próprio
espírito santo se apossou da pessoa, como faz parte de uma trindade “integrada”
– 3 em 1 e 1 em 3 – todos os três deuses ou o único deus supremo, já sabem o que
a pessoa precisa. Não há necessidade de pedir, de orar, de gritar ou de proceder
como desequilibrados recitando mantras idiotas.
"(...)O povo todo louvando a Deus em uma voz muito
moderada na igreja fica aquele barulho gostoso como a Bíblia descreve no
Apocalipse, o barulho de muitas águas.” (...)Línguas estranhas é um dom louco
que não tem razão nenhuma, mas por isto mesmo é necessário fé. Temos que crer
que uma loucura aos olhos humanos é usada pelo Senhor para nos edificar, isto
realmente precisa de fé."
Veja
novamente a aplicação do mote maior: “Não pergunte nada, apenas creia!”.
Isso é fé. Na verdade, o único barulho “gostoso” para esses sacripantas é o de
moedas caindo no cofre. O dom pode ser louco, mas é lucrativo.
Esse
“barulho” é o indutor de catarse na multidão. O sujeito, envolvido pelo clamor,
entra em estado de suspensão, chora, grita, integra-se à manada de cabeças
vazias de bom senso, saturadas de emocionalidade e de endorfinas. É o mesmo
fenômeno que contamina os espectadores em um estádio de futebol. A manada
compacta, reage como uma única massa, guiada apenas pelo seu lado emocional,
ficando aberta para receber e cumprir qualquer ordem, por mais absurda que seja,
estourando a qualquer sinalização.
Na congregação, o ritual foi cumprido seguindo uma meticulosa preparação. Cada
passo é ensaiado rigorosamente para levar a multidão a esse estado de lavagem
cerebral, infantilizada e idiotizada. Depois que o “louvor” passa, a pessoa
sente-se aliviada e acredita que realmente foi incorporada por algo
sobrenatural.
Está
pronta para cumprir ordens que surgem como sugestões. Acha que foi curada (na
realidade, não foi, e se a dor ou doença se manifestar depois, a culpa é dela
que não está tendo fé suficiente.) Abre a bolsa alegremente e a carga de
endorfinas, que a fez sentir-se tão bem, torna-se um vício.
Ela
recebe quase sem refletir as explicações mentecaptas sobre a tal da língua
desconexa que arengou, tem fé em tudo que lhes é dito e, como uma criança de
tenra idade, não percebe o ridículo e, principalmente, o roubo que estão
perpetrando contra ela.
Reflexo condicionado, o fiel fica cativo e voltará sempre, trazendo seu suado
dinheirinho para receber sua carga de alívio emocional. Essa é a razão dos
mentores fingirem ignorar o evangelho de Mateus e mandarem às favas Paulo e suas epístolas, deturpando-as e
descumprindo-as. A grana fala mais alto.
Como dizia Maquiavel, em “O Príncipe”, “quem engana sempre vai encontrar
alguém que queira ser enganado”. Esse é o povo. Esse é o preço a pagar
pelo medo da morte total, pela angústia de saber que, ao nascer, se começa a
morrer; e por querer uma imortalidade impossível.
 |
A riqueza e o ouro dos "pastores" |
Nesse
caso, ele não somente quer ser enganado; ele PRECISA que seja enganado, pois a
verdade é fria e extremamente cruel. E os enganadores se aproveitam dessa
angústia mortal para – parasitas, incompetentes em produzir algo útil para a
humanidade – enriquecerem e levarem uma boa vida terrena.
Esse ridículo “falar em línguas”, praticado nesses centros de alienação mental,
que constrange as pessoas sensatas com espetáculo tão deprimente, insano e
farsesco, é a prova cabal daquilo que Erasmo de Rotterdam já havia constatado,
por volta de 1500, em seu “O Elogio da Loucura”:
“Já não falo de Minos, nem de Numa, que por meio de
fabulosas invenções souberam tirar proveito da ignorância popular. É sempre com
semelhantes puerilidades que se faz mover a grande e estúpida besta, que se
chama povo.”
L
Valentin
Agosto-2008