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28 de dez. de 2014

Pequenas Bondades

Pequenas Bondades
Luis Valentin

Existem boas ações de todos os tipos e feitas igualmente pelos mais diversos motivos. É a mãe que guarda o prato de comida para o filho comer quando chegar à noite, ou que arruma seu quarto diligentemente ou faz de tudo para que ele se sinta bem. São boas ações motivadas pelo instinto maternal que o filho ganha, mesmo quando não as merece. Existem os agrados inter-familiares que são praticados em nome dos laços de parentesco. Existem aquelas, a maioria, feitas por puro interesse, quando o “benfeitor” tem em mente receber de volta uma recompensa, ou manter o beneficiado com uma dívida eterna, para a qual é lembrado quando se deseja algum favor dele.

E existem as “pequenas bondades”, que são ações que não custam nada, ou muito pouco, ao agente, mas tocam o paciente profundamente. Custar pouco ou nada, não se aplica, por exemplo, se Bill Gates der mil dólares de esmola a um mendigo na praça. Você, enganado pela mídia, pode refutar: “É. Mas ele doou 30 milhões de dólares para caridade”. Sim, meu ingênuo leitor. Deu essa quantia, para descontá-la do imposto de renda. Ou seja, era um dinheiro perdido. Doando, retira do governo e o encaminha para instituições que, no fundo, são gerenciadas por empresas da qual ele próprio é acionista. Resumo da ópera: grande parte desse dinheiro acaba voltando à sua mão.

Custar pouco é aquilo que já está incluído no orçamento das pessoas comuns e o seu peso pode ser absorvido com facilidade.   As pequenas bondades então, são gestos que não nos pesam de modo algum e que se fazem a alguém mesmo sem ter a obrigação de fazê-los, mas, que o impacta de modo que não conseguimos imaginar. E as pessoas contempladas jamais esquecem disso. Por exemplo, você pode convidar aquele amigo, que está passando uma fase ruim e depressiva, para jantar em sua casa. Para você não custa nada, para ele, talvez seja a mola que vai fazer com que entre num melhor estágio de vida. Convidar apenas por fazer uma pequena bondade, um gesto espontâneo, sem esperar retribuição.

Outro exemplo: Certa vez, tinha eu sete anos, quando apareceu em nossa porta um sujeito que era conhecido no bairro.  (Oh! década de 1950, quando alguém tinha que atravessar o quintal para apertar a campainha colocada ao lado da porta.) Era um deficiente, pois ambas as mãos tinham sido amputadas na altura do pulso e ele pedia esmolas carregando uma bolsa pendurada no pescoço, onde as pessoas colocavam o dinheiro. Ao me pedir uma ajuda, falei que não havia dinheiro, nem ninguém em casa, somente meus irmãos menores, cujo pequeno estava a chorar por querer pão. Então ele disse: “Pega aqui na minha bolsa um cruzeiro e vai comprar pão para teu irmão”.  Eu, na minha inocência dos sete anos, fiz o que ele mandou. Ele sorriu, deu meia volta e desapareceu. Nunca mais o vi. Um aleijado, pedinte, necessitado, “ajudou” crianças que ele sabia serem de classe média, só de olhar a casa e a garagem para o carro, e que o choro do pequeno era pura manha. Mas, mesmo assim, fez uma pequena bondade e conseguiu marcar indelevelmente um menino de 7 anos que, quase 60 anos depois, não o esquece, e tem tal cena gravada na mente nos mínimos detalhes.

Em outro exemplo, já recente, eu tinha um amigo, o Roque, que era dono de um bar conhecido como “Bar dos Tricolores”, famoso em toda a cidade. Homossexual assumido, mas uma pessoa comedida, discreta, educada e fina. Ele morava em um prédio que dava vista para meu quintal e aos domingos de manhã, podia contar que ele estava na janela da sala acenando para mim enquanto eu fazia limpeza da área. Notei que ele passava sozinho muitos domingos (era rejeitado por sua família, que tinha vergonha de sua condição). Uma certa ocasião, ao receber parentes da Espanha para um almoço, lembrei-me de Roque em sua janela, sozinho, e resolvi convidá-lo para participar desse almoço. À tarde, quando se despedia eu lhe agradeci por ter vindo. Ele me olhou e disse: “Você está brincando comigo? Me convida para uma reunião íntima familiar, como se eu fosse um de vocês, e ainda quer me agradecer? O que você fez não tem preço. Jamais poderei lhe pagar” Apertamos as mãos e ele partiu. O que foi isso? Simplesmente uma pequena bondade.

Para fechar com chave de ouro, aqui vai um caso extraído do Reader’s Digest, onde fez falta uma pequena bondade:

Charles G. Dawes, que veio a ser vice-presidente dos Estados Unidos, era amigo íntimo do Presidente McKinley. Em seu diário ele fala numa noite em que o presidente estava com dificuldades para decidir qual de dois homens de igual competência ele deveria nomear para um importante cargo num ministério. Pensa daqui, pensa dali, quando o então o presidente, de repente, sem hesitação, escolhe um deles.
- Os homens são ambos competentes, mas lembrei-me de um fato que me fez descartar um deles - disse o presidente - Há muitos anos, numa noite de tempestade,  tomei um bonde e fui sentar-me no último lugar que ainda havia, na parte de trás do carro, quando entrou uma lavadeira idosa, carregando um pesado cesto de roupa. Ela ficou de pé, no corredor entre os bancos e, apesar de sua aparência de desolação, ninguém lhe ofereceu o lugar. Um dos candidatos ao cargo estava sentado perto dela, lendo um jornal, que virou de maneira a não ver a velha. Fui até a senhora, apanhei seu cesto de roupas e a conduzi até o meu lugar. O homem não levantou os olhos do jornal e não viu o que fiz.
O candidato nunca soube - concluiu Dawes - que esse pequeno ato de egoísmo, ou, antes, essa pequena omissão de bondade, o privou daquilo que teria coroado a ambição de sua vida inteira.


Resumo, para quem faz e quem recebe: pequenas bondades sempre trazem grandes recompensas.
Feliz Ano Novo !